ARTIGO | A SOGRA DO EDUARDINHO | Por Marcos Damasceno

MarcoxzUm amigo da região de São Raimundo Nonato-PI, contou-me (na verdade, desabafou) o seu difícil relacionamento com sua sogra. Uma sogra daquelas… Bem venenosas. O nome dele é Eduardo, mas todos o chamam de Eduardinho. Menos a sogra, ela chamava-o de “esse troço”. Quando se casou, ela não queria que sua filha se casasse com ele, e até chamava-o de “pé rapado”. Já o sogro adorava o genro.

Depois de um tempo, já casado, o sogro faleceu. O genro já estava bem de vida, era comerciante na época; hoje está aposentado. Sua esposa era filha única do casal. A maior herança que o sogro deixou para ele foi a sogra, mas ele não queria nem saber dela morando na sua casa, e jogava um monte de coisa na cara dela; alegava tudo. Inclusive, recordava que ela foi contra o seu casamento. Mandou (acredite!), até, cortar o rabo do seu cachorro para não ter manifestação de alegria em sua casa, quando a sogra chegasse por lá. Os dois viviam às turras.

Já ela, sonhava morar no conforto da casa do genro. De vez em quando, inventava até que estava doente. Ficava uma semana por lá, até o genro desconfiar: “A senhora não quer ir logo embora? Percebo que está melhor”. A sogra ficava calada, para ser sempre vítima. Pensava: “Preciso ser meu próprio disfarce”. Sua esposa revidava: “Deixe de ser implicante! Não está vendo que a mamãe está doente!” Nessa confusão a sogra conseguia passar até meses por lá. Ele pronunciava a embolada (de Jota, Jotinha e Jotão): “Eu quero bem a minha sogra/Bem distante de mim”. Até que ela ia embora. Eduardinho analisava: “Sem aquela velha encrenqueira nessa casa, volta um clima de paz. Oh, Deus! Obrigado”.

Numa dessas passagens por sua casa, sua esposa fez um cartão de crédito para a mãe. Claro, para o genro pagar as faturas. Ele quase morre de raiva. A sogra comprava muito. E não é que ela foi assaltada… Levaram o cartão dela. Compraram tanto, tanta coisa… Eduardinho, tenso, a esperar a fatura. A expectativa (invertida) de um rombo era enorme… De uma despesa alta… No entanto, quando veio a fatura, logo viu que os assaltantes gastaram menos do que a sogra. O genro expulsou-a de casa, e quebrou o cartão.

Eduardinho recebe um convite a fazer parte da Maçonaria. A sogra virou uma arara, e foi até a casa dele só dizer-lhe um desaforo: “Não admito isso! Soube que pra entrar lá [na maçonaria], tem que dá um filho para o diabo!” O genro, para inflamar mais ainda, disse-lhe: “Não. Agora estão dando é a sogra”.

Depois de uns dias, houve uma discussão entre ele e sua esposa, comum em relacionamento. A filha resolve ligar para a mãe. A sogra adorou, e começou a fazer a cabeça dela: “Minha filha, esse seu marido não presta. Veja o que ele fez comigo…” Daí ela resolve ir embora para a casa da mãe. E diz: “Vou para aí, mamãe. Quero castigar meu marido”. A sogra, doida pra voltar para a vida boa da casa do genro, revidou logo: “Nem pensar! Se é para castigá-lo, eu é que vou para aí…” E, foi! A sogra se enfiou na casa dele. Toda decisão ou confusão ela entrava no meio. Para aumentar, claro. Em casamento que sogra intromete, quando um não quer três não brigam. O genro não a tolerava mais.

Pior do que isso eram as omissões de conflitos, ou seja, sua esposa estava omitindo coisas para evitar conflitos entre sua mãe e seu marido. São frustrações da vida. É bom lembrar-se que todos nós passamos por isso. Aí está o salário mínimo que não me deixa mentir; não dá pra nada, nem pra passar dificuldade com dignidade.

O homem desmantelou-se. Passou a beber. De início, bebia socialmente, depois se depravou. Com convicção, sua filosofia de vida, dizia:

– O que leva um homem a não beber? Vi o que aconteceria comigo se eu continuasse não bebendo daquele jeito… Eu ia acabar matando aquela velha desgraçada. Aproveito mais a vida quando sou infeliz. Porque minha felicidade passa por aquela velha [a sogra]. Já a infelicidade não, é sem ela. De maneira, que prefiro ser infeliz sem ela a ser feliz com ela. Êta velha do satanás! Acabou com minha vida.

Nos primeiros dias Eduardinho tomava apenas cerveja, depois passou a ser todo tipo de bebida. Até cachaça, das mais fortes. Logo no primeiro gole se sentiu outra pessoa. A primeira dose explodiu como as famosas tocadas de Beethoven: “Tchan-tchan-tchaaaaaannnnn…” Seguido de aplausos dos demais bêbados. Ele era quem bancava as cachaças deles, inclusive esse bar abre primeiro do que a padaria mais próxima. Até hoje existe. O genro pensou: “Devo evitar os excessos, não demais. Está sendo maravilhoso viver sem aquela velha nojenta”.

Ele passava mais era fora de casa. Dormia na casa de amigos, da mãe, em hotel. Tudo pra ficar distante da sogra. Quando brigou com sua esposa, saiu de vez de casa. Por causa da sogra, passou a odiar a mulher também. Sua frustração sobre casamento era nítida, quando dizia nos bares: “Casamento não é bom. Morrer queimado é muito melhor!”.

“Pifanim” (Epifânio) disse-lhe: “Volte pra casa, Eduardinho…” Ele: “Aqui, ó! Nem pensar”. O amigo prosseguiu: “Você não está se alimentando bem”. Ele novamente: “Quando eu era criança e morava lá no Barreiro das Porcas ninguém lamentava por quaisquer dois dias de fome. Hoje é uma lamúria”. Disparou no choro. O amigo consolou-o: “Chore à vontade! É bom; a raiva passa”. Logo lhe questionou: “Escuta, Eduardinho, você a aceitaria de volta?” Ele: “Aceito. Ela e, se for preciso, o diabo daquela velha [sogra]”.

A sogra pensava sempre: “Ô se ele morresse logo, eu passaria a viver tão bem [no conforto] com minha filha”. O casal não tinha filhos. Já o genro imaginava: “Deus, perdoa-me! Sou apenas um pobre sofredor, um genro sofrido. Necessitando se livrar da sogra. Tenho que matá-la, não tenho outra saída”. Ele se tornou num bem-intencionado mau caráter. Muitos não comem em casa para manter a forma física, já ele era para manter a paz.

Resolveu, então, criar problemas para sua insofrida sogra. Como sabe você, ela era “vítima” de notáveis índices de conforto e de boa vida. Pensou, ironicamente: “Alguma coisa ruim vai acontecer com ela, e tem que ser logo. Alguma coisa precisa acontecer!” Contratou alguns amigos para um plano. De preferência, um sumiço – para sempre – da sogra. Por coincidência, ela foi sequestrada. A filha entrou em desespero. Já o genro adorou a notícia: “Ô Beleza! Tomara que não volte”.

No segundo dia, depois do acontecimento, o genro recebe uma ligação telefônica, eram os sequestradores querendo negociar o resgate. Sua esposa deitada, a efeito de calmantes. Ele indaga: “Quem fala, por favor?” Do outro lado a voz: “Quero negociar a soltura de sua sogra. Por menos de R$ 10.000,00 (dez mil reais) não solto ela, de maneira alguma”. Os assaltantes sabiam que ele era rico, podia pagar uma quantia boa. De início, o genro comunicou-lhes que ela não valia nada para ele. Aliás, não valia meio litro de esgoto; ditado popular.

Depois veio a grande ideia. Olhou para um lado, e para o outro, só ele na sala. Entrou em ação: “Que dez mil que nada… Eu dou logo é quarenta mil (R$ 40.000,00) para vocês desterrarem com ela pra bem longe. Sumam com esse traste pra lá!” Assim ocorreu. O dinheiro foi levado até o local marcado, por um portador. Enquanto sua esposa chorava diuturnamente por causa do sumiço da mãe, ele ficou mais alegre. Chegava a assobiar, de alegria. Livre da sogra para sempre. Parou até de beber. Estava saindo da deprê (depressão) – contou-me.

Deu tudo errado. A sogra voltou. Nem os bandidos a aguentaram. Também ninguém sabe como ela conseguiu escapar. De repente, chega à casa do genro, e ainda sem avisar. Ele se assustou com o que viu: “Valei-me, Nossa Senhora!” Pensava ser assombração. Era ela, vivinha da silva. Com um sorriso largo disse, parafraseando Roberto Carlos: “Eu voltei/Voltei para ficar/Porque aqui/Aqui é meu lugar” (na casa do genro). Ele imaginou: “Moço de Deus, quando é que eu vou me livrar dessa velha?!” Tudo voltou: a sogra, a infelicidade, as confusões, as cachaçadas, a depressão enfim.

Até que num belo dia ele recebeu o grande comunicado, da boca de “Pifanim” (Epifânio): “Sua sogra morreu”. Ele não acreditou: “Não é possível… Agradeço pela notícia, mas desconfio dela [notícia]”. O amigo esbravejou: “Está me estranhando, Eduardinho?!” Os dois se abraçaram de alegria, e gritavam pulando: “Ela morreu, ela morreu, ela morreu…” O genro: “Ô beleza! Falta, agora, só enterrá-la”.

Quando chegou a sua casa, estava ela lá estirada no chão. Alguns chegaram a dizer: “Vamos levá-la para o hospital. Pode ainda ter jeito”. Ele revidou: “Nem pensar! Ela não tem mais jeito”. Virou para o lado e pensou: “Dessa vez ela tem que ir [morrer]”. Logo chegou a filha, pense numa tristeza… O velório foi providenciado. Missa de corpo presente. O genro ali, a olhar para a sogra, pensando: “Tu vai diretinho pro inferno, satanás. Pagar pelas raivas que me fez. Tomara que ache uns lá, iguais a ti”.

Logo se lembrou de um detalhe: o sepulto. Decidiu (sozinho) que ninguém iria para o cemitério. O sepulto seria simples, apenas com a presença dos coveiros. A esposa concordou, mas sem saber o motivo da decisão do marido. Encerrado o velório, a funerária veio buscar o corpo para levar para o cemitério. Para os demais, uma despedida dolorosa. Para ele, uma despedida gratificante, com tempero de alívio. O homem mudou; da água para o vinho.

Assim orou: “Senhor, receba a minha sogra com a mesma alegria que estou enviando-a. Ai, que alívio… Senhor!” Deu a ordem para os coveiros, escondido de todos os presentes:

 

– Peguem este dinheiro. Vocês vão sepultá-la emborcada, com a tampa do caixão pra baixo. Pode ser que ela ainda esteja viva, e queira cavar pra sair. Aí vai é afundar mais…

Era tanto dinheiro que os coveiros assustaram-se: “A missão é só essa? Moleza”. Depois de alguns dias o genro foi ao cemitério. Lá estavam os coveiros. Deu tudo certo. A sogra havia morrido mesmo. Ele foi apenas conferir.

Depois de confirmada sua morte, resolveu fazer um bonito túmulo. Não fez epitáfio. No túmulo colocou foi uma placa, com os seguintes dizeres: “Aqui descansa minha sogra. Descansa ela, e descanso eu”. Pensou consigo mesmo: “A saudade é enorme, mas o alívio é incomparável…”.

Marcos Damasceno

(escritor)

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