Artigo | UM SERTANEJO DE OPINIÃO | Por Marcos Damasceno

marcos1No interior do município de São Raimundo Nonato-PI, hoje município de Dom Inocêncio-PI, tinha um grande fazendeiro (já morreu), e tudo dele era no maior zelo. Sua sela nova outra pessoa jamais usava, seu cavalo de sela só ele montava, sua espingarda era guardada em sete capas, e por aí vai…

Certa época, ele vendeu uma boiada e comprou um carro, uma F-75. Naquele tempo era um carrão. Pense num zelo… Cuidado terrível. Não deixava botar qualquer bagagem nela. Bode nem pensar, por causa da urina. Só levava uma quantidade mínima de gente, além dessa quantidade nem seu pai se tivesse pra ir também à viagem. Sacaria teria que ser bem no meio, para não ralar os lados da caçamba do carro. Para o bujão, que era em cima da caçamba, fez uma capa. Couros, capas e enfeites eram vistos por toda parte.

Viagens eram poucas. O carro passava mais era parado, guardado. No inverno, por causa das lamas; iria sujar todo. Na seca, por causa da poeira; sujaria também. Calçamento malfeito? Odiava passar por ele. Dizia logo: “Este calçamento foi feito de avião: jogaram as pedras lá de cima”. E ficava nessa lenga-lenga. Todos pagavam a passagem, até sua esposa. E todo o restante da família: filhos, netos, noras, genros etc. Ele só viajava na porta. Podia ter 10 (dez) pessoas pra irem à cabine, mas o lugar da porta era sempre dele. A pintura já estava deteriorada por causa do braço grosando, e ainda o suor do braço.

Por causa desse seu capricho (na verdade, carrancismo), é que uma vez a porta abriu, e ele caiu. Duas comadres dele haviam chegado de São Paulo-SP e estavam em São Raimundo Nonato-PI para vir com ele, na linha que fazia para lá. Fala-se que chegava todo importante na cidade, com o braço na porta. Ao voltarem, as comadres tinham que vir na cabine. O dono do carro gordo, e as comadres mais ainda. O motorista ainda disse: “Não vai caber vocês três!” A cabine já era apertada, por si só. O dono do carro, para fazer vantagem, e empolgado ao levar as comadres no seu carro, assegurou-lhes: “Aqui é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um”. Mesmo assim, se agasalharam na cabine e foram. “Imprensados que só pinto no ovo” – um bordão popular. Ele na porta, todo fofo. Um charme terrível.

No percurso, numa curva fechada para o lado do motorista, o peso forçou a porta do passageiro demais e ela abriu. Era numa areia. O dono do carro caiu. Quase morre, o carro ia passando por cima dele. Enterrou a cara na areia. Quando o pegaram, já um idoso, a boca estava cheia de areia. Mas ele não perdeu o rebolado: “Pense numa rapidez. Pensei que não tinha mais essa ligeireza. Ainda consegui escapar”. Ninguém riu… Todos ficaram assustados e preocupados com ele. Carro era uma coisa incomum na época, e um acidente de carro era algo, até ali, inédito (desconhecido).

Ao levantar-se, deram água pra ele. Ficou melhor. E, perguntou aos passageiros: “Está tudo bem com vocês? E com o carro?” Sua atitude era para insinuar que o acidente envolveu todos os passageiros. Logo determinou: “Então vamos prosseguir a viagem”. Imagine onde ele foi? Na porta de novo. Ao chegar a sua casa, tomou uma atitude: colocar um ferrolho na porta. Uma tranca. Na verdade, uma travanca, igual àquela de porteira de curral. Ficou horrível, porém, muito mais seguro.

Certo dia aparece em sua casa uns “paulistas” – na verdade eram pessoas da região, mas eram chamadas assim por virem do Estado de São Paulo. Pense numa moagem… Era um converseiro, uma conversa sem fim. O dono da casa (e do carro) havia morado em São Paulo, mas na capital, em outras épocas (década de 50), onde conseguiu muita coisa trabalhando uns anos por lá. Era o tempo em que o vapor e o trem eram os transportes, e quis contar suas experiências.

Em seguida, os “paulistas” propuseram fretar seu carro. Surpreendentemente, ele disse que iria a viagem e não cobraria por ela. Duas surpresas: ir à viagem e não cobrar nada por ela. Era conhecido (já morreu) nas redondezas como um homem covarde. O dono do carro disse ainda que fazia questão apenas do gás (combustível). O filho, também motorista, ficou sem entender essa. “Vai até chover!” – sentenciou.

Preparam a viagem. Colocaram a bagagem toda. Ele no pé, num cuidado danado com tudo e com todos. Debaixo de uma figueira grande, na frente da sua casa. Arrumada a bagagem, o motorista ligou o carro e os “paulistas” (eram três – um casal e uma criança) entraram na cabine. Ao fechar a porta, o chefe da família bateu-a com força. O dono do carro soltou um grito medonho, o maior do mundo: “Meu Deus, assim não!” E, perguntou-lhe: “Lá na tua casa tem geladeira?” O “paulista” disse: “Tem”. Ele arrematou: “Pois aqui é do mesmo jeito; com a mesma delicadeza”. Referia-se à maneira de fechar.

Partiram em viagem. Na estrada o motorista, que era filho do dono do carro, pediu desculpas aos “paulistas”. Lamentava as besteiras do seu pai. Ainda disse-lhes: “Esse sistema dele é esquisito. E, é com todo mundo. Não confia em ninguém”. O casal “paulista” amenizou a situação: “É o jeito dele. Esse povo mais velho é assim, cheio de carrancismo”.

Certa época teve que ir a Teresina fazer exame de próstata. Não confiava em ninguém. Não aceitou a companhia de nenhum familiar, com medo de ser roubado; e pra diminuir a despesa. Fizeram um medo a ele, disseram-lhe que os taxistas faziam voltas para aumentar o valor da viagem. Ele levou a sério. Chegou à rodoviária em Teresina, e foi pegar o táxi para a pensão. O taxista: “O senhor quer ir pra onde?” Ele: “Quero ir para a pensão da Jô”. Com medo de ser enrolado, inventou: “Mas vá ligeiro, porque estou pra cagar e posso cagar seu carro todinho. E, é aquela bosta fininha”. Nunca um motorista andou tão rápido pela Avenida Miguel Rosa.

Esta foi a maior viagem, a mais distante, que fez depois que veio de São Paulo. Certa época teria que ir uma viagem à terra da garoa, mas resistiu e não foi. Os filhos mandaram uma passagem de avião para ele, mas disse logo que jamais viajaria de avião. Tentaram convencer-lhe de que avião não cai, que isso é conversa do povo. Ele revidou: “E quem disse que tenho medo de avião? Tenho medo é de aeroporto. A gente fica lá horas e horas esperando…” E, ficou por isso.

Seu carrancismo era nítido. Ele voltou de Teresina-PI sem fazer o exame de próstata, e morreu de câncer cinco anos depois. Tudo porque não aceitou fazer o toque no reto. Já no final da consulta médica, aceitava com uma condição: se ele ficasse segurando no “brinquedo” do médico. Este indagou: “Mas, por quê?” Ele arrematou: “É pra eu ter certeza que você está enfiando mesmo é o dedo!” E, partiu de volta, sem fazer o exame.

A secretária do médico ligava insistidamente para seus filhos, querendo o seu retorno. Certo dia ele estava na cidade, e deu certo ela falar com o dito cujo. Indagou-o: “Por onde anda?” Ele: “Pelo chão, pois eu não aprendi a voar”. Ele era mal-humorado e pedagógico: tirava as pessoas de tempo, e odiava fuxico. Uma mulher foi contar-lhe um fuxico, e logo alertou: “Mas é segredo! O senhor não conta pra ninguém!” Ele: “Minha filha, vamos fazer o seguinte: não me conte, não. Se você, que é dona do segredo, não está aguentado guardá-lo, imagine eu”.

Realmente o dono do carro sempre foi assim. Era uma pessoa incorrigível. No entanto, tratava-se de uma boa pessoa. Jeito autoritário, mas com coração bondoso. Direito e civilizado. Apenas era metódico, cheio de ciência e cuidadoso com as coisas. Foi assim por toda a sua vida.

Parece que ele havia tomado gosto por frete, e resolveu criar uma linha para a sede do município de Dom Inocêncio-PI. No entanto, durou pouco tempo. O fim se deu quando deixou Branquinho. Este estava esperando no ponto, à beira da estrada, e o carro passou direto. Fizeram de conta que não o viram, mas se deram mal.

Pra quem não conhece Branquinho, ele é o maior feiticeiro das redondezas: sabe curar bicheira sem ver o animal, sabe prender um animal no mato sem contato com ele, faz despacho, até um carro ele sabe parar com o seu feitiço enfim.

Pois bem. Quando o carro passou direto, deixando-o, ele disse: “Passou, mas não vai longe”. Logo na frente, num beco, no meio de uma areia, o carro deu o prego. Nunca, até hoje, descobriram o problema. O fato, é que teve que ser puxado por outro carro até a casa do dono. Até hoje permanece lá, no prego, debaixo de uma árvore.

Dizem as más línguas, à boca miúda, que foi o feitiço do Branquinho. Coincidência ou não, eu desconfio que seja verdade.

 

    

Marcos Damasceno
(escritor)

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